Reclamar pode ser libertador


São tempos sombrios.

Não estamos acostumados a esse tipo de tristeza coletiva no ar.

Certa vez, li que para o luto existem cinco estágios. A negação, a raiva, barganha, depressão e, finalmente, aceitação. Dito isso, recentemente observando tudo que vem acontecendo, penso que talvez, tenha descoberto a presença de um sexto: encontrar um significado.


Neste momento, todos nós conhecemos pessoas que parecem estar “presas” em pelo menos um desses estágios. Sua filha que está brava por não poder ver suas amigas, seu parceiro(a) que está barganhando tarefas domésticas pelas quais anteriormente não se sentiam responsáveis. Seu médico, que luta contra a depressão enquanto trabalha na linha de frente. Ou manifestantes, que lutam contra o medo e a incerteza dos efeitos de um vírus, mas mesmo assim se dispõem a ir a rua protestar por mudanças necessárias.


Na minha opinião, em um único dia, a esmagadora maioria de nós experiência os seis estágios de luto tão rapidamente quanto podemos clicar em "Sair da reunião" - ao final da chamada de zoom do trabalho. De fato, é difícil encontrar aceitação ou significado quando não temos a menor idéia de quando essa era de incerteza pode terminar.


Você pode acordar e dizer "Vou recomeçar! Vou melhorar e voltar a normalidade!”. Mas, esse tipo de otimismo de esforço (sem fazer muitas perguntas e trabalhando em uma solução) - é meramente um meio de negar a complexidade dessa experiência. E, quando essa negação desaparecer, teremos que simplesmente aceitar que, talvez, pode não haver "retorno".


Podemos, por outro lado, manter o otimismo de que o “novo normal” possa trazer boas mudanças. - Que por acaso é o que chamamos de "Otimismo Trágico" ou "a capacidade humana de transformar - criativamente - os aspectos negativos da vida em algo positivo ou construtivo".


Jamais - em hipótese alguma - subestime a catarse da boa e velha queixa.

Por uma questão de fatos, penso agora que aos seis estágios do luto, deveriam acrescentar um sétimo: reclamar. - Vou explicar. - Acho que reclamar é uma maneira de conquistar a arte do sofrimento (e é uma arte), como um meio de manter uma conexão com nossas habilidades históricas de enfrentamento e garantir, de certa forma, que as lições aprendidas com a tragédia fiquem conosco para sempre.


Reclamar é um dos pilares de qualquer cultura. Você pode até lamentar, chorar, se preocupar, se irritar ou agitar-se.

Então, você reclama do seu parceiro(a) ...

"Estou entediada."

“Eu quero ir a um restaurante.

"Estou cansado de andar por aí com álcool em gel."

"Pare de me dizer para me exercitar."

"Pare de assistir o que eu como."

... apenas para eles responderem: "você sabe que não te falta nada, temos tudo por aqui”.

Bom, adivinhem? Vocês dois estão certos.

Você pode reclamar - às vezes é bom! - muito bom. Afinal, não podemos ser gratos o tempo todo. A gratidão é profundamente importante e curadora, mas este é um momento em que também precisamos abrir espaço para queixas! Há uma razão para termos o hábito de "reclamar" quando algo não está bom em quase todas as culturas - é uma libertação que só. Uma maneira de ainda sentir que você tem uma opinião sobre sua vida.


Há no entanto, um porém. Ao intensificar a tradição que enfatiza a reclamação, também permitimos uma margem considerável para reclamar sobre a reclamação de outras pessoas.

Não é isso que seu parceiro(a) está fazendo com você?

Seu parceiro deve sim lhe dar uma perspectiva, afinal isso faz parte. Mas, dizer que você não deve reclamar porque é melhor do que a maioria (como se você já não soubesse disso), não ajuda. Isso fará você se sentir culpada(o) por reclamar - e depois reclamar por se sentir culpado.

A culpa significa que você tem consciência. Transforme-a em responsabilidade e isso se tornará útil.

Quando você transforma sua culpa em ação, ela tem valor social. Caso contrário, permanece mera auto-absorção. Portanto, contribua com o que puder neste momento e volte a reclamar.


Semana a semana, passamos por essas fases. A acumulação, o planejamento de última hora e os eventos mundiais malucos se transformaram em alta ansiedade e estresse, e agora entramos na fase obsoleta.


Não foi interessante ler todos esses artigos sobre como a produtividade em quarentena é superestimada? Nos dias em que conseguimos ser produtivos, nos sentimos ótimos. Mas, cá entre nós, além do trabalho - que eu amo -, eu luto para me motivar. Estou cansada de me ouvir reclamar e depois me sentir mal por reclamar. Mudei para a responsabilidade total. Entendo que não é a ideia mais atrativa para todos, mas acho isso mais motivador do que qualquer coisa que eu possa fazer sozinha e por mim mesma.


Levanto cedo para caminhar todos os sete dias da semana, porque sei que tenho meus pacientes me esperando no Facetime. Mesmo que eu tenha ficado acordada até tarde e não tenha dormido bem, estou suficientemente motivada para ver meu pessoal, que estão motivados por saber que estou esperando por eles.


Normalmente, eu não recorro as fofocas para aliviar o estresse, mas quando o comportamento das mídias sociais relacionadas à pandemia de um amigo está deixando você louco, ou talvez até deixando você com um pouco de inveja, uma pequena fofoca pode ter um efeito homeopático.



E se eu te contasse que existe uma maneira certa de reclamar que obterá resultados, melhorará seus relacionamentos e sua auto-estima?


Podemos ser gratos e ainda assim, reclamar. Podemos ser responsáveis ​​e ainda assim, dar uma folga. Podemos ser pacíficos e amorosos. Podemos falar besteira e desabafar.


Manifestar-se é uma ferramenta de sobrevivência. Use-a com sabedoria.

Vai nos ajudará a lidar com esses tempos assustadores.


Reclamar é suculento. Portanto, faça das suas reclamações, boas e por um bom propósito.


Texto: Rafaella P.

Ilustração: Kaye Blegvad


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©2020 por Cris Monteiro.